terça-feira, março 21, 2017

Grandes Mestres da Táctica (12)... Joaquim Meirim

Entendo que uma vida sem memórias é como que um caderno em branco ou um álbum sem fotografias. Isto a propósito da recente comemoração de mais um Dia do Pai, mais um dia em que o meu (pai) vagueou pela minha mente, ali deixando recordações de uma ligação (física) que terminou cedo demais... Foi ele, o meu pai, que me incutiu a paixão pelo futebol. Paixão que entretanto assume hoje contornos de amor eterno, e nesse aspeto acho mesmo que o superei no tal encantamento pelo belo jogo. Recordo muitos diálogos mantidos pela noite dentro com ele, muitos deles em torno do futebol, ouvindo atentamente as suas suas histórias sobre as lendas do passado que imortalizaram um futebol de um tempo que eu não vivi, mas que de tanto ouvir e ler quase que posso afirmar alegremente que tive o privilégio de assistir in loco a esses longínquos momentos de magia.
Esta breve nota nostálgica leva-nos para a história de um homem marcou vincadamente uma era do futebol português, mesmo não tendo alcançado nele a glória que outros (com muito menos conteúdo intelectual e profissional) conquistaram. Sobre ele o meu pai falava vezes sem conta, apelidando-o de "maluco", mas um maluco no bom sentido da palavra - se é que este adjetivo pode ser pronunciado no bom sentido -, um maluco genial, um adiantado mental para a sua época. Esse homem é Joaquim Meirim, figura fascinante e controversa do futebol lusitano das décadas de 70 e 80. Hoje há ainda quem o descreva como um furacão que surgiu nos palcos principais do nosso futebol, um homem cuja peculiar personalidade abalou o Portugal futebolístico de então. Transportando Meirim para o presente poderíamos encara-lo como um clone de José Mourinho, pela tal personalidade controversa, pela convicção com que sustentava as suas argumentações - sobretudo as mais irreais aos olhos de um cidadão vulgar -, pela eloquente forma como articulava essa mesma argumentação - mais parecendo um filósofo da bola - e acima de tudo pelos seus então inovadores e pouco convencionais métodos de trabalho. Se Mourinho hoje é o mestre dos mind games, Meirim foi o inventor desse ludibriante estilo de comunicação futebolística.
Joaquim Meirim mudou um futebol português que vivia ainda um pouco ressacado do momento de fama obtido no Mundial de 1966, incutindo-lhe uma estranha forma de vivacidade e excentricidade. Sim, Meirim era um excêntrico, um excêntrico maluco, como dizia o meu pai. Um revolucionário, é isso. Mas quem era afinal esta figura? Nasceu no Minho, em Monção mais concretamente, no dia em que se comemoravam 25 anos da implantação da República em Portugal - 5 de outubro de 1935. O pai, o homem que admirava mais do que tudo, havia sido proibido por Salazar de exercer a atividade de professor primário, devido às suas inclinações políticas, as mesmas que o filho Joaquim tanto iria evidenciar ao longo da sua carreira e que tantos dissabores lhe causaram. A família Meirim mudou-se para Lisboa, tendo o pai agarrado o ofício de sapateiro em Alcântara. Foi ali, num meio pobre onde reinava a classe operária, que Joaquim Meirim cresceu e se fez homem. Pouco ou nada se sabe de Meirim enquanto futebolista do símbolo maior de Alcântara, o Atlético. O futebol era por aqueles dias apenas um romance de fim de semana para Joaquim Meirim, que ganhava a vida como empregado de escritório. Mas os romances por vezes dão em casamento, quando existe paixão e certezas de que é com aquele par que queremos partilhar a nossa existência. E Meirim sabia desde cedo que o seu lugar era no comando de futebolistas. Após pendurar as chuteiras noutro mítico emblema bairrista da capital, no caso o Oriental, Joaquim Meirim obtém com 27 anos o curso de treinadores, ministrado pelos mestres José Maria Pedroto e Fernando Vaz. Aos ensinamentos absorvidos na Cruz Quebrada durante a referida formação, Merim acrescenta o seu peculiar e controverso estilo, de palavras simples mas ao mesmo tempo eloquentes e bombásticas, aliado a metodologias de treino revolucionárias e a uma relação treinador-jogador pouco comum para a época. Em 1967/68 tem a primeira experiência mais a sério no exercício do ofício que sempre sonhou. Orientou a CUF, tirando o mítico emblema da cauda da tabela até ao sétimo lugar da mesma.

Adivinhando a entrada em cena de um treinador diferente, o presidente do Varzim, João Fernando, lança dois anos mais tarde o canto da sereia a Meirim, que prontamente viaja até ao norte para fazer história. Quiçá o ponto alto da história de Meirim no Atlas do Futebol Português. Os Lobos do Mar alcançam um inédito 7º lugar - terminando o principal campeonato português à frente do FC Porto, por exemplo. Meirim salta então para as capas de jornais, não só pelo feito alcançado ao serviço do modesto clube poveiro mas pela sua forma de trabalhar e de ser. Ele apresentou ao futebol nacional estranhas metodologias de treino, ao levar, por exemplo, os jogadores para a praia ou para matas e montanhas ao invés de os exercitar nos retângulos de jogo. Outro traço forte da sua personagem enquanto condutor de homens era a apetência para a psicologia, na sua exímia capacidade de moldar a mente dos seus atletas. E aqui introduzo uma outra lembrança do meu pai, a história que ele me contou inúmeras vezes sempre que o nome de Joaquim Meirim vinha à baila. A famosa história do guarda-redes Benje, o tal que sem oportunidades no Benfica viajou para a Póvoa de Varzim onde se tornou no melhor keeper do... Mundo! O rótulo foi dado pelo próprio Meirim, que para motivar o seu guardião incutia-lhe precisamente na mente esse estatuto, o de melhor do planeta. E o angolano Pedro Benje entrava nas quatro linhas com esse peso nas costas, defendendo a baliza do Varzim com  espetacularidade, mais parecendo um gato negro a voar para agarrar todas as bolas que se lhe deparavam pela frente. A culpa do melhor momento de Benje foi obviamente de Meirim, «o psicólogo, o pedagogo, o padre, o preparador físico, o tático», como ele próprio se definia enquanto treinador. Um treinador humilde e modesto, como tantas e tantas vezes se auto-caracterizou.
A excelente temporada na Póvoa leva-o na temporada seguinte a regressar à capital, desta feita para treinar o quarto grande do futebol nacional, o Belenenses. Em Belém a meta traçada no início da época foi simples: ser campeão nacional. Muitos pensaram que Meirim estaria louco! Mas ele era um louco, um génio louco. Na pré-época aplicou os seus inovadores métodos de treino, levando os jogadores a correr para a praia e para as matas de Monsanto. Ao invés da bola os atletas trepavam às árvores, mais parecendo tarzans no meio da selva. A televisão nacional e os jornais centravam atenções naquele Belenenses e em Meirim de um modo muito particular, que aproveitando o mediatismo que detinha por aqueles dias lançava declarações bombásticas em direção aos adversários no sentido de os desestabilizar. Lá está, os famosos mind-games. Ao mesmo tempo incutia na mente dos seus jogadores capacidades que eles próprios desconheciam possuir, a título do que fez com Benje, que estava convencido de que era mesmo o melhor do Mundo. Mas no Belenenses as coisas não correram como o esperado, e Meirim foi destituído do cargo. A sua carreira prosseguiu noutras paragens (Boavista, Leixões, Salgueiros, Beira-Mar, Desportivo das Aves, Sanjoanense, Gil Vicente, Louletano, Estrela da Amadora e Lusitano de Évora) no que restou daquela década de 70 e em lampejos da de 80. Em finais do milénio passado ainda regressou aos bancos para um fugaz aparição no Desportivo de Beja, mas a sua estrela há muito que se tinha apagado. Incompreensivelmente apagado. Porquê? É uma pergunta para a qual não encontramos resposta, até porque Merim era um adiantado mental, um inovador, um revolucionário. Sim, um revolucionário, e provavelmente está aqui a resposta para a perguntar anterior, ou seja, terá sido por isso, em parte, que as portas do futebol português se foram fechando lentamente para ele, um ativista político, um dirigente sindical, um confesso militante do Partido Comunista Português, facto que lhe valeu tantos dissabores. Como por exemplo, o despedimento do Leixões, assim que o presidente deste emblema soube que Joaquim Meirim iria concorrer à Câmara de Matosinhos pela Frente Eleitoral Povo Unido. Mas Meirim era um homem de convicção forte, um defensor acérrimo dos seus ideais, e nunca se vendeu ao poder do futebol. Foi um homem à frente do seu tempo. Muito à frente. Joaquim Meirim deixou o Mundo terrestre em maio de 2001 vítima de doença prolongada, tal como o meu pai, a quem dedico esta breve memória de hoje.

segunda-feira, março 13, 2017

Flashes Biográficos (11)... Paulo Innocenti

Paulo INNOCENTI (Brasil): O futebolista brasileiro é visto globalmente como um diamante raro alvo de desejo generalizado. Poucos serão os países dos cinco continentes que não veneram hoje em dia nos seus retângulos de jogo um artista proveniente de Terras de Vera Cruz. A esse propósito abrimos hoje as portas do Museu para recordar aquele que foi o primeiro futebolista nascido no Brasil a transpor as fronteiras do seu país rumo a outras paragens, por outras palavras, o primeiro emigrante do futebol brasileiro a atuar no estrangeiro. Paulo Innocenti é o seu nome. Descendente de imigrantes italiano, Paulo veio ao Mundo a 11 de março de 1902, tendo como berço o Rio Grande do Sul, mas seria na grande cidade de São Paulo que se projetou no então muito jovem futebol brasileiro. Foi com a camisola do Paulistano, o então gigante do futebol paulista onde pontificava o lendário Arthur Friedenreich, que Innocenti deu os primeiros passos mais a sério na modalidade, tendo integrado a equipa que venceu o campeonato paulista de 1921, precisamente o ano em que este descendente de italianos vestiu pela primeira vez a camisola do emblema de São Paulo. Ali permaneceu até 1923, altura em que decide atravessar o Atlântico rumo à pátria da sua família, e mais concretamente até Bologna, para defender as cores do modesto Virtus durante a temporada de 1923/24. Quiçá sem se aperceber na altura, Paulo Innocenti entrava na história, ao tornar-se no primeiro jogador nascido no Brasil a atuar além fronteiras. Posicionando-se no terreno de jogo como defesa (na maior parte das vezes lateral) Innocenti destacou-se pelas suas qualidades desde pronto, e não seria de estranhar que o lendário mestre da tática Hermann Felsner, o arquiteto d' Il Grande Bologna, o chamasse para representar o emblema mais popular da cidade e um dos mais poderosos do calcio daquela época, precisamente o Bologna FC, onde sobressaiam nomes como Mario Gianni, Della Valle, ou o astro Angelo Schiavio. Nas duas temporadas (24/25 e 25/26) que envergou a maglia rosso blu o ítalo-brasileiro contribuiu para a conquista do scudetto de 1924/25, participando em 13 jogos dessa campanha vitoriosa. Posto isto decide em 1926 abraçar um novo projeto que acabava de ver a luz do dia no sul de Itália: a Sociatà Sportiva Calcio Napoli, fundada a 1 de agosto desse ano. Pippone, alcunha que entretanto arrecadou no país da bota devido ao formato pontiagudo do seu nariz, faz parte da história do Napoli, não só por ter tido a honra de ser o capitão de equipa no primeiro jogo oficial que os napolitanos efetuaram - ante o Inter de Milão - como também por ter sido o autor do primeiro golo da vida daquele emblema - ante o Genoa. Nas dez temporadas que jogou em Nápoles, Innocenti fez mais de 200 jogos com o clube, tendo inclusive sido neste período que atuou pela seleção nacional B italiana - já que ele um oriundi (descendente) - em quatro ocasiões. Após abandonar a carreira de futebolista em 1937, Paulo - ou Paolo para os italianos - Innocenti desapareceu praticamente do mapa futebolístico, continuando no entanto a viver em Nápoles, cidade a que passou a chamar de casa. Até que em 1943 é convidado pelo Napoli a substituir o então treinador Antonio Vojak, numa altura em que o clube se encontrava a competir na Serie B - segundo escalão do calcio. A aventura no banco seria curta, e pouco depois Pippone voltaria à sua condição de habitante anónimo de Nápoles até à hora da sua morte - devido a um ataque cardíaco - em 1983, curiosamente um ano antes de a cidade começar a viver sob os desígnios de D10S - Diego Armando Maradona.

terça-feira, fevereiro 21, 2017

Histórias do Futebol em Portugal (17)... O dia em que o recém nascido Oriental introduziu em Portugal a numeração nas camisolas



A equipa do Oriental que em 1946 entrou na história do futebol português
Saber onde foi o ponto de partida “disto ou daquilo” é por vezes uma missão espinhosa para um historiador, seja ele de que área for. E no futebol essa incerteza que convive com os investigadores do esférico sobre um determinado facto é em muitas ocasiões uma realidade, ou não estivéssemos nós perante um fenómeno global em que nem sempre é fácil ter certezas absolutas se determinado facto aconteceu pela primeira vez “aqui ou ali”. É o caso da numeração nas camisolas, que ainda hoje suscita algumas dúvidas entre os historiadores sobre o local ou a(s) equipa(s) que pela primeira vez na história usou dorsais nas costas dos seus mantos sagrados – vulgo camisolas. Há quem aponte o ano de 1911 como aquele em que pela primeira vez jogadores de duas equipas surgiram no retângulo de jogo com as “costas” numeradas. Facto ocorrido, segundo reza a história, na Austrália, num jogo disputado em Sydney, entre os conjuntos do Sydney Leichardt e do HMS Powerfull. Uma moda que terá pegado de estaca em terras de cangurus, já que no ano seguinte todas as equipas do país foram obrigadas a usar numeração nos torneios oficiais em que competiam. 
Outros historiadores defendem que os números estampados nas costas das camisolas surgiram pela primeira vez nos Estados Unidos da América, nos anos 20, num jogo entre o Fall River Marksmen e o Saint Louis Vesper Buick. Certezas, certezas de onde foi a "primeira vez" não existem, sabendo-se apenas que a moda rapidamente pegou, e em finais dos anos 20 do século passado chegou (com toda a certeza) à Europa, mais concretamente à pátria do futebol moderno, Inglaterra, onde o Arsenal então orientado pelo lendário Herbert Chapman surgiu em campo para defrontar o Sheffield Wednesday a 25 de agosto de 1928 com as suas camisolas numeradas. Segundo a História, e no mesmo dia, o Chelsea defrontou o Swansea Town com as suas camisolas... numeradas! A única diferença entre os rivais londrinos residiu no facto de que o guarda-redes dos blues não usava número na sua camisola, contrariamente aos seus colegas de campo - cuja numeração ia do 2 ao 11. Já os gunners apresentavam a sua equipa numerada de 1 a 11. 
E em Portugal, quando é que a moda pegou? Quando é que uma equipa se apresentou com camisolas numeradas num jogo? Bom, é aqui que entronca a nossa história de hoje, o momento em que os números nas costas dos jogadores bailaram pela primeira vez num relvado lusitano.
Facto histórico que coincide com outro momento histórico para um não menos histórico - e perdoem-nos os nossos visitantes por usarmos e abusarmos desta palavra - clube lusitano, neste caso o Clube Oriental de Lisboa. Bem, sobre a história do Oriental não nos vamos alongar muito, até porque ela é rica e extensa, e não caberia neste artigo, vamos sim centrar-nos no primeiro passo futebolístico que este emblema deu e que entrou na história do futebol em Portugal. 
Relembrar apenas que o Oriental nasceu da fusão de três pequenos clubes da zona oriental de Lisboa, no caso o Clube Desportivo "Os Fósforos", o Marvilense Futebol Clube e o Chelas Futebol Clube. Uma união que visava um sonho: dotar a freguesia de Marvila de um grande clube. E assim nasceu a 8 de agosto de 1946 o Clube Oriental de Lisboa. O futebol foi desde o primeiro dia a modalidade rainha de um emblema que alcançou inúmeros momentos de glória - desde logo as presenças no palco principal do futebol luso, a 1ª Divisão, onde esteve por sete ocasiões. E foi precisamente ao serviço do desporto rei que o Oriental entrou para a História do futebol português no dia 15 de setembro de 1946. Uma jornada cheia de significado para o então recém nascido Oriental, que nessa tarde disputava diante do gigante Belenenses aquele que era o primeiro match da sua curta existência. Uma partida desenrolada no mítico Estádio das Salésias a contar para a ronda inaugural do Campeonato Regional de Lisboa da temporada de 1946/47. Rezam as crónicas que o recém criado Oriental vendeu muito cara a derrota (1-2) diante do emblema que nessa temporada haveria de conquistar o maior feito da sua história: o título de campeão nacional da 1ª Divisão
Mas nesse longínquo encontro do Regional lisboeta um pormenor histórico ressalta hoje, passados poucos mais de 70 anos, à nossa memória, isto é, o facto de pela primeira vez uma equipa de futebol ter usado números nas suas camisolas. E esse registo pertence ao Oriental, que mal gatinhava ainda e já se apresentava inovador. Aliás, na antecâmara deste encontro um dirigente do clube de Marvila, no caso Rui de Seixas, levantava um pouco do véu junto da imprensa da época ao dizer que o seu clube iria surgir nas Salésias com uma pequena surpresa, fazendo um apelo ao público para comparecer ao encontro pois iriam presenciar algo de inédito nos retângulos da bola lusitanos. O mistério lançado pelo dirigente orientalista foi então dissipado na tarde de 15 de setembro, quando os jogadores de Marvila surgiram no relvado com as camisolas numeradas de 1 a 11. E assim se fazia história no futebol português. A imprensa da época fez eco desta "primeira vez" que os números bailaram nas costas das camisolas de uma equipa em Portugal, tendo o mestre Cândido de Oliveira, por exemplo, escrito que «a decisão do Oriental de numerar os jogadores merece relevo e é digna de ser seguida por todos os clubes». Seria contudo só a partir da época de 1947/48 que a Federação Portuguesa de Futebol iria tornar obrigatório o uso de números nas camisolas. 

domingo, fevereiro 12, 2017

Arquivos do Futebol Português (8)...

Um quadro de Lisboa no início do Século XX
O início do século XX trouxe consigo a alavanca que iria catapultar em definitivo o futebol português para o caminho da popularidade. Não deixa de ser curioso que esta ascensão acontece em anos conturbados da vida do país, o qual estava mergulhado numa profunda crise sócio-económica. O regime monárquico era pontapeado sistematicamente pelo movimento republicano que ganhava cada vez mais adeptos e força para vencer uma batalha que teria o seu epílogo a 5 de Outubro de 1910 - precisamente com a implementação da República. Mas isso são outras histórias... Era, no entanto, num cenário negro que o país vivia no início do novo século, sob o signo da tristeza, do sofrimento e da miséria. Motivos para sorrir eram quase uma miragem. Quase, e este quase deve-se ao futebol, ou jogo do coice, como então ainda era denominado por alguns que resistiam em ridicularizar aquele que começava aqui a tornar-se como o ópio do povo, como muitos anos mais tarde "alguém" viria a denominar esta modalidade. Na verdade, o football começava a vislumbrar-se por estes dias conturbados como uma distração de um povo que diariamente sofria as consequências da agitação - a diversos níveis - que se vivia em Portugal. E a quem muito se deve este súbito despertar do interesse em torno do belo jogo foi à imprensa. Após os últimos anos do século anterior terem sido pautados por algum desprezo face ao jogo, os jornais (nota: o Tiro Civil é um dos mais ativos na publicação de notícias futebolísticas por estes dias) voltam a centrar atenções nos matches - e nas figuras que lhes davam vida - que iam sendo desenrolados. Nos primeiros anos do novo século surgem mesmo inúmeras publicações vocacionadas apenas para o sport, não só no futebol como noutras modalidades, facto que contribuiu imenso para a popularização do fenómeno. E quando falamos em popularização aludimos ao facto de o football começar neste início de século a sair do berço aristocrático em que nasceu para se juntar ao povo, às classes mais baixas da sociedade. Apesar deste início de união (eterna) entre futebol e povo começar a ganhar vida nos primeiros lampejos do século XX, seriam, de certa forma, os aristocratas a voltar a segurar na alavanca que iria impulsionar de vez o futebol em Portugal. E neste capítulo há que destacar uma vez mais a nobre família Pinto Basto, os introdutores do jogo no nosso país, nunca é demais recordar, cabendo a eles uma grande parte da responsabilidade pelo facto de a bola recomeçar a saltar com vigor nos grounds nacionais.

Eduardo Luís Pinto Basto
A chama do futebol em Portugal reacende-se no seu berço, isto é, em Lisboa. É lá que alguns grupos se voltam a reunir. Em Belém surgem alguns grupos provenientes da Casa Pia, e que acabariam por estar na génese do futuro Sport Lisboa que mais tarde viria a tornar-se no atual Sport Lisboa e Benfica. De forma um pouco mais organizada o futebol ressurge então pela mão dos aristocratas, com os Pinto Basto a comandar esse intento juntamente com a colónia inglesa radicada na capital - ou zona envolvente - que sempre continuou a praticar o jogo mesmo no período em que ele esteve digamos que moribundo. Claro que noutras zonas da capital, em Belém como já vimos, o futebol ganhou vida pela mão de populares, sobretudo estudantes, muitos deles vindos da também já referida Casa Pia, mas no que concerne a matches rodeados de interesse, esses ainda eram disputados por aristocratas e ingleses, sendo aqui de destacar três clubes em particular, o Carcavellos Club, o Lisbon Cricket Club - dois temidos emblemas fundados e compostos por ingleses - e o Real Ginásio Clube, agremiação de índole nacional reanimada pela mão da família Pinto Basto, sobretudo por intermédio de Eduardo Luís Pinto Basto, cuja ação foi preponderante para a reorganização da secção de futebol do Ginásio Clube. Por esta altura, e facto que também terá contribuído para o definitivo enraizamento do futebol em Portugal, terá sido o fim do ódio português a tudo o que era inglês, e como o football era uma criação britânica abriram-se os braços ao beautiful game.

No concerne a matches, ou notícias relevantes de jogos, que surgiram na imprensa durante esta época de 1900/01, destacamos por exemplo a goleada do Carcavellos Club - continuava indiscutivelmente a dominar o futebol lisboeta - aos conterrâneos do Lisbon Cricket Club por 5-0, num duelo disputado na Quinta Nova, em Carcavelos, em março, sendo que no plano individual um tal de Withers destacou-se ao apontar três golos. No início de 1901 o Real Ginásio Club havia também medido forças com o Carcavellos Club, tendo conseguido o enorme feito de travar a armada britânica com um... empate a zero bolas na Cruz Quebrada.
Em 16 de março de 1901 acontece algo de certa forma histórico, que veio quebrar pela primeira vez em Portugal uma tradição inglesa, a de não se jogar football ao domingo por motivos religiosos. Neste dia o Carcavellos Club aceita um desafio diante do Real Ginásio Clube, ocorrido em Carcavelos. A notícia deste match é dada com relevância no Diário Ilustrado de 18 de março desse ano de 1901, da qual recordamos na integra alguns trechos que mostram a mestria e a admiração (que crescia entre os portugueses) pelos ingleses e a bravura dos lusos:
«(...) Os jogadores de Lisboa partiram acompanhados de grande número de sportsmen e senhores convidados no comboio da 1.45 do Cais do Sodré. Chegados a Carcavellos às 2 e meia, eram cercadas 3 quando o referee, Sr. Blythman, deu o sinal de começo, estando frente a frente os dois teams seguintes: Por Carcavellos Club: Durrant (goalkeeper), E.A. Wilmott (back), Hall (back), Normandy (half back), E.P. Wilmott (half back), Manes (half back), Coombs (forward), MacKay (forward), Clark (forward), Gibbons (forward) e Colider (forward). 
Pelo Real Gymnasio Club: Figueiredo (goalkeeper), Aimé da Costa Feio (back) e Siddle (back), C. Gonçalves (half back), F. Boavida (half back) e Motta Veiga (half back), Lacerda (forward), L. Araujo (forward), Mortimer (forward), (nota: desconhecendo-se os dois outros jogadores).
De ambos os lados, desde o principio, jogou-se com valentia. Por parte do team inglês notou-se o que sempre se nota por parte de teams ingleses, e em especial de Carcavellos: muito treino. O seu segredo não é outro.É esse: muito treino. O muito treino dá-lhes unidade no ataque, resistencia na defesa, certesa nos pontapés e folego para nunca abandonarem a bola. (...) São em football o que são em polities, em família, em comércio, em tudo: valentes dentro de sangue frio, enthusiastas dentro da logica, atrevidos dentro da lei. Modelos em tudo. (...) Na 1ª parte marcaram 2 goals contra nenhum; na 2ª marcaram outros dois contra nenhum. Não se pense, porém, que venceram com facilidade. Custou-lhes a vencer, e o perder os portugueses não podia ser mais honroso do para estes do que foi. Efectivamente sem treinos, com jogadores - como o goalkeeper - que há seis anos não jogava e outros que não conheciam o jogo dos seus parceiros, é precisa muita alma, alma de portugueses para aguentar o embate das hostes inimigas com valentia com que o R.G.C. aguantou (...)». 

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Lista de Campeões... Copa Libertadores de Futebol de Praia

Em finais de 2016 o universo do futebol de praia ficou mais rico com a criação de uma nova competição: a Copa Libertadores. Prova desenvolvida pela CONMEBOL na zona sul do continente americano, e cuja primeira edição foi realizada em janeiro de 2017. Tal como a prova que se realiza nos relvados, isto é, no futebol, a Libertadores do Beach Soccer é destinada a clubes, no caso aos nove emblemas campeões nacionais dos países (da América do Sul) que integram a CONMEBOL. Do Brasil vieram os primeiros campeões (o Vasco da Gama) de um torneio que acontece numa fase final concentrada, isto é, as nove equipas disputam o troféu num mini torneio que ocorre num determinado local escolhido pela CONMEBOL. 
 2017: Vasco da Gama (Brasil)

terça-feira, janeiro 10, 2017

Os vencedores do prémio FIFA Melhor Jogador do Mundo...

Pode não ter tanto simbolismo como a Bola de Ouro, mas não deixa de ser um prémio pomposo que qualquer jogador de futebol gostaria um dia levar para o seu museu pessoal. Falamos do The Best FIFA Football Award, ou, na língua de Camões, o Prémio FIFA Melhor Jogador do Mundo.  Instituído em 1991 pelo organismo que tutela o desporto rei a nível planetário, este prémio visa distinguir precisamente o melhor jogador do globo em cada ano civil. A entrega do galardão - que é também atribuído no futebol feminino - sofreu um interregno entre 2010 e 2015, altura em que a FIFA decidiu unir-se à revista francesa France Football no sentido de premiar o melhor do Mundo com o prestigiado Ballon d' Or - a referida Bola de Ouro -, passando então este troféu a denominar-se de FIFA Ballon d' Or. Em 2016 cada um foi para seu lado, isto é, a France Football voltou a chamar a si a responsabilidade de atribuir a Bola de Ouro, enquanto que a FIFA reativou o seu prémio, rebatizando-o de The Best FIFA Football Award. Em termos de palmarés o Brasil é de longe a nação com mais prémios angariados, mais concretamente com oito. No que toca a clubes o Barcelona lidera a tabela de vencedores, já que foram sete os atletas que com o seu emblema ao peito arrecadaram o galardão. O francês Zinedine Zidane e o brasileiro Ronaldo são os jogadores mais vitoriosos do The Best FIFA Football Award, sendo que cada um deles tem no seu museu particular três distinções. Portugal inscreveu o seu nome na lista de vencedores - que pode ser vista em seguida - por três ocasiões, duas através de Cristiano Ronaldo (2008 e 2016) e uma por intermédio de Luís Figo (2001).
2016: CRISTIANO RONALDO (Portugal/Real Madrid)
2009: MESSI (Argentina/Barcelona)
2008: CRISTIANO RONALDO (Portugal/Manchester United)
2007: KAKÁ (Brasil/Milan)
2006: FABIO CANNAVARO (Itália/Juventus/Real Madrid)
2005: RONALDINHO (Brasil/Barcelona)
2004: RONALDINHO (Brasil/Barcelona)
2003: ZIDANE (França/Real Madrid)
2002: RONALDO (Brasil/Real Madrid)
2001: FIGO (Portugal/Real Madrid)
2000: ZIDANE (França/Juventus)
1999: RIVALDO (Brasil/Barcelona)
1998: ZIDANE (França/Juventus)
1997: RONALDO (Brasil/Barcelona/Inter)
1996: RONALDO (Brasil/PSV/Barcelona)
1995: WEAH (Libéria/Milan)
1994: ROMÁRIO (Brasil/Barcelona)
 1993: ROBERTO BAGGIO (Itália/Juventus)
1992: VAN BASTEN (Holanda/Milan)
1991: MATTHAUS (Alemanha/Inter)

segunda-feira, dezembro 26, 2016

Lista de Campeões... Copa Libertadores Sub-20

Em 2011 a CONMEBOL dá início à Copa Libertadores de Sub-20. Esta é a maior competição da zona sul do continente americano destinada a atletas com idade até aos 20 anos.  A prova é disputada pelos campeões sub-20 dos países filiados na CONMEBOL de dois em dois anos, numa fase final concentrada num país a designar previamente, sendo que na sua ainda curta história sofreu um interregno entre 2013 e 2015. Em seguida fiquemos com a galeria dos campeões do certame. 
Paraguai 2016 - Vencedor: São Paulo (Brasil)
Perú 2012 - Vencedor: River Plate (Argentina)
Perú 2011 - Vencedor: Universitário (Perú)  

Nota: Entre 2013 e 2015 não se disputou

sexta-feira, dezembro 23, 2016

Histórias do Planeta da Bola (18)... Terá sido o Palmeiras o primeiro campeão mundial de clubes?


Palmeiras ergue a Copa Rio de 1951
A recente polémica instalada em torno do número de títulos de campeão nacional alcançados pelo Sporting (18 ou 22) abre-nos hoje a porta para outro facto histórico que durante anos levantou - e continua a levantar - algumas dúvidas sobre a sua autenticidade e, por consequência, importância. Referimo-nos ao título conquistado pelo Palmeiras na Copa Rio Internacional de 1951, que é olhado hoje, com 65 anos de distância, como a primeira ocasião em que foi atribuído a um clube o estatuto de campeão mundial. É no entanto um facto encarado por muitos historiadores desportivos e/ou simples curiosos do fenómeno futebolístico com profunda insignificância, desprovido de veracidade, e como tal sem qualquer tipo de fundamento para sequer constar no Grande Atlas do Futebol planetário. Pelo contrário, outros sustentam que este longínquo torneio realizado em solo brasileiro foi o molde, a inspiração, do atual Campeonato do Mundo de Clubes organizado sob a batuta da FIFA, e que os contornos intencionais desse torneio oficializam o Palmeiras como o primeiro campeão mundial de clubes da história. Não existe, portanto, consenso para este facto histórico que hoje vamos recordar, e que só pela polémica instalada em seu redor merece, sem dúvida, ser retratado com algum detalhe nas vitrinas do Museu Virtual do Futebol.

A Copa Rio
Após uma derrota dolorosa é costume os jogadores, treinadores, dirigentes ou adeptos de uma equipa desejarem que o próximo jogo se realize o mais rápido possível no sentido de esquecer um capítulo sombrio ocorrido no presente. Terá sido este o pensamento dos dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) quando em 1951 idealizaram aquele que inicialmente foi batizado de Torneio Mundial dos Campeões. 
Por estes dias o Brasil ainda lutava para esquecer o pesadelo vivido um ano antes, quando o Uruguai roubou, em pleno Estádio do Maracanã, o título mundial aos anfitriões do maior evento chancelado pela FIFA. 
No sentido de limpar as lágrimas do provo brasileiro, a CBD projetou um outro torneio de dimensão planetária capaz de apagar as tristes memórias do Maracanazo de 1950. Um evento que agregasse a si alguns dos maiores clubes do Mundo de então, assim terão idealizado os dirigentes federativos. A ideia agradou de pronto aos membros da FIFA, tendo Ottorino Barassi, o braço direito do então presidente do organismo que tutela o futebol a nível global, Jules Rimet, dado o seu apoio para que o projeto fosse avante. 

O time do Vasco da Gama que na sua cidade falhou o assalto à conquista da Copa Rio
Há, no entanto, uma nota importante a reter nesta história: a FIFA apoiou e autorização a realização do torneio mas não chamou a si a organização do mesmo, atribuindo essa responsabilidade à CBD. Por outras palavras, na época a FIFA não oficializou como seu este Torneio Mundial dos Campeões, facto que só por si gerou ao longo das décadas seguintes muitos pontos de interrogação sobre a veracidade da designação do Palmeiras como o primeiro campeão mundial de clubes da História. Mas voltando aos contornos desta nossa viagem ao passado, com o aval da FIFA dado, a CBD tratou de convidar alguns dos gigantes do futebol internacional de então, na sua esmagadora maioria campeões dos seus respetivos países. Uma das exceções foi o Real Madrid, que mesmo não sendo o detentor do título espanhol de 50/51 recebeu o convite para participar, algo que acabaria por não acontecer devido a incompatibilidades de ordem financeira. Tal como hoje, já naquela época o colosso espanhol exigia elevados cachets para desfilar o seu emblema fosse em que parte do planeta fosse! Também o campeão italiano de 50/51, o Milan, recusou o convite que recebeu para viajar para a América do Sul, dando prioridade à Taça Latina que nesse ano se disputava precisamente em solo italiano. Com a nega dos merengues e dos rossoneri o Torneio Mundial dos Campeões foi integrado pelos vencedores dos dois principais campeonatos estaduais do Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, no caso, e respetivamente, o Vasco da Gama e o Palmeiras, aos quais se juntaram os campeões do Uruguai (Nacional), de França (Nice), da Áustria (FK Austria de Viena), de Portugal (Sporting), a Juventus (escolhida para substituir o Milan) e ainda o vencedor da Taça da Jugoslávia da época (Estrela Vermelha). 
A equipa da Juventus que participou na Copa Rio... ou terá sido o primeiro
Mundial de clubes?
Os oito clubes foram divididos em dois grupos de quatro equipas cada, sendo que o Grupo A (integrado pelo Vasco da Gama, Sporting, Austria de Viena e Nacional) teve como cenário a Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, tendo o palco da competição sido instalado no majestoso Estádio do Maracanã, o tal que no ano anterior amparou as lágrimas de mais de 200.000 brasileiros na sequência da trágica derrota da sua seleção diante do Uruguai. Em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, realizaram-se os encontros do Grupo B (composto por Palmeiras, Estrela Vermelha, Nice e Juventus). A bola começou a rolar no dia 30 de junho, sendo que no Pacaembu o campeão paulista realizou uma segunda parte verdadeiramente demolidora diante do Nice, performance traduzida num expressivo score de 3-0, com golos de Aquiles, De León e Richard. Na outra partida, ocorrida no dia seguinte no mesmo local, a Juve sentiu algumas dificuldades para bater por 3-2 o Estrela Vermelha, tendo valido aos transalpinos a tarde inspirada da sua então estrela-mor, o atacante Giampiero Boniperti, autor de dois golos. O campeão italiano repetiu a dose dois mais tarde diante do Nice, sendo que desta feita o golo do triunfo (3-2) surgiu à passagem do minuto 70, por intermédio de Ermes Muccinelli. Com esta vitória a Juventus selava a qualificação para as meias-finais, já que de acordo com os regulamentos do torneio os dois primeiros de cada grupo avançavam para a fase de eliminação direta. No dia 5, e contra todas as expectativas o Palmeiras sentiu grandes dificuldades para bater o Estrela Vermelha por 2-1. O internacional jugoslavo Ognjanov colocou os europeus em vantagem. A perder, o Verdão teve então de puxar dos seus galões e ainda na primeira parte Aquiles empatou, para na etapa complementar Liminha consolidar a reviravolta e garantir a qualificação da sua equipa para as meias-finais. 

Giampiero Boniperti
Faltava saber em que lugar os paulistas iriam terminar esta primeira fase, e talvez por isso o Pacaembu tenha registado uma afluência massiva de torcedores para assistir ao embate da última jornada da fase de grupos ante a poderosa Juve. Na realidade, assistiu-se a uma verdadeira avalanche italiana em direção à baliza paulista. 4-0 a favor dos italianos, o resultado final de uma partida onde brilhou a grande altura Giampiero Boniperti, que voltou a fazer o gosto ao pé em duas ocasiões. Ele que ainda hoje é um dos grandes nomes da história da Vecchia Signora, com mais de 400 jogos disputados com a equipa de Turim ao longo de 10 épocas e quase duas centenas de golos apontados (178 para sermos mais precisos). Boniperti que, refira-se a título de curiosidade, depois de abandonar os relvados enquanto futebolista foi durante largos anos dirigente da Juve, sendo hoje presidente honorário do clube. Foi ainda nos finais dos anos 90 eurodeputado eleito pelas listas da Forza Italia, o partido de Silvio Berlusconi. Com este expressivo triunfo a Juventus conquistava o topo do grupo, e iria medir forças com o segundo colocado do Grupo B, o Austria de Viena, ao passo que o Palmeiras iria enfrentar os conterrâneos do Vasco da Gama, vencedores de uma chave que tinha um Sporting que vivia ainda sob a aura gloriosa dos Cinco Violinos, ou Quatro Violinos, neste caso, porque a temível lança do mais famoso quinteto do futebol português, Fernando Peyroteo, havia-se retirado dois anos antes, restando Jesus Correia, Vasques, Albano e Travassos. A estes juntavam-se outros nomes de peso, casos de Mário Wilson, João Martins, Juca, Canário, Patalino e Ben David. Patalino e Ben David?  
A equipa do Sporting que alinhou diante do Vasco da Gama no Maracanã.
Na fila de baixo,ao centro estava o "convidado" Ben David, entre os Violinos
Jesus Correia, Vasques, Travassos e Albano
Mas estes dois astros dos futebol português dos anos 40 e 50 não pertenciam aos quadros do Sporting, dirão, e com razão, os leitores mais atentos à história do belo jogo. Ambos os jogadores integraram a comitiva leonina que rumou ao Rio de Janeiro na condição de convidados, assim como Serafim, então jogador do Belenenses, que aceitou o convite para vestir de verde nos três jogos que os leões disputaram na meca do futebol brasileiro, o Maracanã. Treinados pelo inglês Randolph Galloway o Sporting partia como um dos mais sérios candidatos à vitória nesta Copa, mas na prática as coisas não correram de feição aquele que era então o grande emblema do futebol lusitano. Aliás, e em jeito de curiosidade, refira-se que em 1951 o Sporting havia vencido o primeiro de uma série de quatro títulos de campeão nacional consecutivos, que haveriam de dar ao clube de Alvalade o primeiro tetra da história do futebol português. Mas no Rio o prestígio do Sporting não se vislumbrou, e logo na estreia os leões sofreram uma das derrotas mais pesadas da prova às mãos do Vasco da Gama. 5-1, numa partida em que atuaram cinco homens que no ano anterior tinham vertido lágrimas naquele mesmo relvado do templo do Maracanã. Friaça, Eli, Maneca, Danilo e Barbosa, cinco jogadores que haviam sido vergados à mestria do Uruguai na final do Mundial de 1950, mas que desta vez saíram com motivos para sorrir do tapete verde sagrado da Cidade Maravilhosa. O tento de honra dos portugueses saiu dos pés de Patalino, um dos três jogadores convidados, e que na altura defendia as cores do seu querido Elvas. No outro encontro desta 1ª jornada o Austria de Viena esmagava por 4-0 o Nacional de Montevideu. 

Verdão festeja um golo na final diante da Juve
Uruguaios que na ronda seguinte vingaram a derrota da estreia, ao aplicar um KO direto (vitória por 3-2) ao desolador Sporting que assim se despedia da possibilidade de lutar pelo título. Neste encontro brilhou mais uma vez o génio de Patalino, ele que aos dois minutos colocou os portugueses em vantagem no marcador, a qual seria no entanto sol de pouca dura, já que dez minutos volvidos Bernardes restabeleceu a vantagem. Pouco depois Jesus Correia recolocou os leões na frente, liderança que seria perdida após o intervalo, altura em que Ramires voltaria a colocar tudo de novo em pé de igualdade. O só seria desfeito a dois minutos do fim, quando Ambrois bateu o mítico Azevedo. A título de curiosidade diga-se que a capitanear a turma do Nacional estava o homem que um ano anos tinha recebido das mãos de Jules Rimet (então presidente da FIFA) o troféu de campeão mundial de seleções, de seu nome Obdulio Varela. 
De pé quente estava o Vasco da Gama, que brindou o Austria de Viena com a mesma receita que havia aplicado ao Sporting na jornada de estreia, ou seja, 5-1, resultado que garantia aos cariocas desde logo a presença na fase seguinte.  
A 7 de julho o Sporting despedia-se da Copa com mais um dissabor, desta feita diante do campeão austríaco, por 1-2. Adolf Huber apontou aos 83 minutos do encontro o golo da vitória dos vienenses, depois de Aurednik ter inaugurado o marcador ao minuto três e de Albano ter restabelecido a igualdade aos 46. Os leões saiam do Rio sem honra nem glória, ao passo que os austríacos carimbavam desta maneira o passaporte para as meias-finais. Isto, porque no outro encontro da terceira e última jornada da fase de grupos o Nacional caiu aos pés do Vasco da Gama por 2-1.

Palmeiras surpreendeu Vasco no duelo brasileiro

Imagem do duelo entre cariocas e paulistas
Pelo que havia feito até então e por jogar diante do seu público, o Vasco da Gama era olhado pela imprensa de então como o grande favorito a alcançar a final. Mas para isso teria de ultrapassar a dupla batalha diante dos conterrâneos do Palmeiras. E dupla porque de acordo com os regulamentos as meias finais seriam jogadas a duas mãos! No dia 12 de julho o Maracanã (lotado) acolheu então o primeiro duelo entre os rivais cariocas e paulistas, sendo que estes últimos para além de partirem como outsiders na bolsa das apostas debateram-se à última da hora com a ausência forçada do seu mítico guarda-redes Cattani, o qual seria substituído por Fábio Crippa. Mas, e como diz o ditado, um azar nunca vem só, e no decorrer do jogo o temível Aquiles é forçado a abandonar o relvado na sequência de um violento choque com o guardião vascaíno, Barbosa. Porém, o Palmeiras não baixou os braços e foi à luta. A atitude guerreira dos paulistas seria premiada com uma justa vitória por 2-1 (com os golos do Verdão a serem apontados por Richard e Liminha).
No mesmo dia, mas no Pacaembu de São Paulo, a Juventus empatava a três bolas com o Austria de Viena, sendo de sublinhar a estupenda exibição individual do dinamarquês ao serviço dos transalpinos Karl Aage Praest, autor de dois golos. Dois dias depois, no mesmo local, as duas equipas voltaram a encontrar-se para o tira-teimas. Depois de um nulo ao intervalo a Juve teve um início de segunda parte verdadeiramente demolidor, e a prova disso é que aos 14 minutos já vencia por 3-0 (dois golos de Muccinelli e um de Boniperti). O melhor que o Austria conseguiu fazer foi reduzir na reta final da partida, mas já sem fôlego para impedir que os italianos fossem os primeiros a carimbar o passaporte para a final do Maracanã.   
E neste templo da bola jogar-se-ia a segunda mão da outra meia final, com o Vasco a entrar em campo com a esperança de inverter o resultado negativo do primeiro encontro. Não conseguiu, porque o Palmeiras esteve simplesmente soberbo no plano defensivo, mantendo o nulo até final que lhe abriu as portas da final.

Vingança em tons de verde na génese do primeiro "título mundial" de clubes


Os dois capitães e o árbitro
antes da final
Sob a arbitragem do austríaco Franz Grill, Palmeiras e Juventus subiram ao relvado de um Maracanã que - mais uma vez - apresentava uma numerosa moldura humana para disputar a primeira mão da final (nota: à semelhança das meias finais também a final foi disputada a duas mãos). A Juve procurava confirmar o favoritismo, até porque na fase de grupos já havia atropelado o Verdão por quatro golos sem resposta. No entanto, esta era uma final, além de que no futebol não há dois jogos iguais. E o Palmeiras viria a confirmar esta teoria por intermédio de Rodrigues, que aos 20 minutos do primeiro tempo bateu Giovanni Viola e selou o triunfo dos brasileiros. Quatro dias mais tarde - a 22 de julho - as duas equipas voltaram a medir forças no derradeiro jogo da competição. A Juventus precisava de marcar dois golos - e não sofrer nenhum - para erguer o troféu diante um estádio repleto que esperava um fim bem mais alegre do que aquele que ali havia acontecido um ano antes por altura do Campeonato do Mundo da FIFA. O dinamarquês Praest ainda colocou o gigante Maracanã em sentido quando aos 17 minutos bateu Crippa pela primeira vez. O fantasma de 1950 voltava assim a pairar sobre o Maracanã. No entanto, e no início da segunda parte Rodrigues aproveita da melhor maneira uma defesa incompleta de Viola - que não segurou um remate de Lima - para fazer o empate. A Juve não esmoreceu, e aos 18 minutos o goleador Boniperti (que seria o melhor marcador do torneio) voltaria a colocar os transalpinos na frente, os quais precisavam agora de mais um golo para levantar o caneco. Esse golo da glória acabou por não acontecer, ou melhor, ele surgiu, mas para o lado do Palmeiras, na sequência de uma magistral jogada individual de Liminha que só parou no fundo da baliza de Viola. 2-2, o resultado final. Com o apito final do francês Gaby Tordjman a festa estalou por todo o Brasil. O Palmeiras era campeão... do Mundo. Sim, do Mundo, foi dessa forma que toda a imprensa da época rotulou os paulistas. Com este título o Brasil inteiro sentia, de certa forma, que o Maracanazo de 1950 não tinha passado de um mero acidente de percurso de uma nação que queria revelar aos olhos do Mundo como a potência que se viria a confirmar nos anos e décadas seguintes.

Copa Rio de 51 foi o molde do atual Mundial de clubes da FIFA

Gooooollllll de Liminha!
No dia seguinte ao da segunda mão da final, o Palmeiras regressou a São Paulo. À espera da comitiva do Verdão estava uma cidade em peso. A Copa Rio Internacional de 1951 resultou num verdadeiro êxito desportivo, facto que terá levado nos anos seguintes outros pensadores do futebol planetário a organizar torneios de âmbito internacional entre clubes de continentes diferentes. Foi o caso do Torneio de Paris, cuja primeira edição foi realizada em 1957 entre equipas de França, Espanha, Alemanha e Brasil, e que durante alguns anos foi considerado como uma das mais importantes e prestigiadas competições internacionais de clubes. Aliás, muitos dos seus vencedores intitulavam-se mesmo campeões do Mundo.  Em 1960, a UEFA e a CONMEBOL uniram-se na criação de uma outra competição, a Taça Intercontinental, disputada (até 2004) entre os campeões das duas maiores provas de ambas as confederações, sendo que o vencedor deste troféu era encarado como o campeão mundial de clubes. No entanto, em 2005 a FIFA decide chamar a si a responsabilidade de coroar o rei do globo no que a clubes concerne, e de lá para cá organiza no final de cada ano civil o Mundial de Clubes, prova que junta os campeões das cinco confederações do Mundo. E aqui, sim, a nosso ver, podemos rotular o vencedor do Mundial da FIFA como um autêntico campeão mundial, já que no mesmo torneio estão representados clubes de todo o Mundo, contrariamente ao que acontecia com a Taça Intercontinental, que só incluía clubes de duas confederações. 

Jornais titulam Palmeiras
campeão do Mundo!
Mas voltando à Copa Rio de 51 para dizer que para muitos dos adeptos do futebol a nível planetário este torneio não passou disso mesmo... de um mero torneio internacional. No entanto, o Palmeiras sempre viu neste um dos principais motivos de orgulho da sua longa e rica história, intitulando-se desde sempre como o primeiro campeão do Mundo de clubes. Na tentativa de ver reconhecido por parte da FIFA este título uma delegação do Palmeiras construiu já no novo milénio um dossier com a intenção de ser remetido à FIFA no sentido de a entidade máxima do futebol planetário oficializar a conquista de 1951, e desta forma reconhecer o emblema paulista como o primeiro campeão mundial da história. Na resposta, a FIFA, então presidida por Joseph Blatter, reconheceu a vitória do Palmeiras como "de âmbito mundial", embora descartando-se de atribuir um carimbo oficial à efeméride, isto é, tal como em 1951 o organismo não chamou a si a responsabilidade do torneio, e como tal não atribuiu cariz oficial (no âmbito da FIFA) a esta conquista, como, aliás, acontece em relação à Taça Intercontinental, prova somente oficializada pela UEFA e pela CONMEBOL. Apesar de tudo, Blatter e a FIFA emitiram um certificado ao Palmeiras reconhecendo este como o vencedor do primeiro torneio de clubes de âmbito planetário. Parecer confuso? Talvez. Perante isto a questão mantém-se: será justo, ou credível, classificar o Palmeiras como o primeiro campeão do Mundo de clubes? Uns continuarão a dizer que sim, outros asseguram que não. 
A equipa do Palmeiras que se sagrou campeã mundial de clubes em 1951... ou não...